O poeta Manuel Bandeira
pensara que era um bicho, eu não tive dúvidas de que era um homem. Eu o vi numa
calçada fria e úmida sob uma lua cheia que condenava a condição miserável desse
“bicho homem”. É a realidade de muitas cidades brasileiras, e aqui em São Luís,
na qual eu resido não poderia ser diferente. Em uma noite, pude avistar vários
“bicho homem”, lado a lado, enrolado em pedaços de pano sentindo a dor da fome
e o desprezo dos olhos alheios.
É vivenciando situações
como essa que perdemos o nosso “lado humano” da vida, simplesmente por se
tratar de uma cena comum e do cotidiano. Para muitos é com se elas não
estivessem lá. Eu mesmo, nunca dou moedas, sinto pena ou remorso, mas é para o
próprio bem de quem está ali naquela cruel realidade. Poderia está me
questionando os “mil e um” motivos nos quais levam o ser humano aquela condição
animalesca, no entanto, pressuponho as causas dessa situação indigna.
Poderia ter parado e
conversado com um deles, mas pressuponho com muitos não têm casa, são usuários
de drogas e que a fome deles dói. É difícil parar e pensar para imaginar o tão
difícil à vida daqueles que estão por não terem moradia e alimentação. Mas por
uma razão ou outra, todos temos problemas ou passamos por dificuldades. Seja o
mendigo com fome, seja a criança que maltrapilha que nunca frequentou uma
escola ou mulheres ofertando o corpo pelas esquinas da cidade. Isso é o
gostosinho do sistema capitalista, ver o homem explorar o outro homem com sede
de “quero mais”.
O irônico é presenciar
vários “bichos homens” dormindo em frente a um determinando Banco que
representa ao grosso modo o bruto capitalismo financeiro. Somente uma palavra
pode descrever esse abismo entre ricos e pobres: Desumanidade. Papelão velho, sacolas
e trapos que agasalhavam do frio e calor. Conforto? Oh, Deus talvez nunca soubessem
o que significa isso. Fome? Bom, isso
eles conhecem como ninguém.
O ônibus parou, eu,
como não esperava mais ninguém, subir e fui embora. Com o coração dolorido e
pensamentos dilacerantes sobre os “bichos homens” que são o apenas o muro da
vergonha que separam ricos e pobres. Assim, como Manuel Bandeira se surpreendeu
em ver que o bicho era um homem, eu senti vergonha.
E encerro cantando a
música “O Bicho Homem” de Fagner: “Que bicho é o homem, de onde ele veio e para
onde vai?/ Onde é que entra de onde é que sai?”.

Abre espaço para pensarmos como estamos vivendo, como estamos lhe dando com os nossos próximos que sofrem, e que passamos bem perto e nada fazemos. É como um copo descartável que você vê jogado no chão, você passa, o vê, mas só toma o cuidado para não pisar nele. A desumanidade como você colocou, está tomando todo mundo, o capitalismo é um grande fator, o lucro é o que importa, o consumidor exacerbado é o que importa, quem sofre, dane-se.
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