domingo, 3 de março de 2013

O "Bicho Homem"




O poeta Manuel Bandeira pensara que era um bicho, eu não tive dúvidas de que era um homem. Eu o vi numa calçada fria e úmida sob uma lua cheia que condenava a condição miserável desse “bicho homem”. É a realidade de muitas cidades brasileiras, e aqui em São Luís, na qual eu resido não poderia ser diferente. Em uma noite, pude avistar vários “bicho homem”, lado a lado, enrolado em pedaços de pano sentindo a dor da fome e o desprezo dos olhos alheios. 

É vivenciando situações como essa que perdemos o nosso “lado humano” da vida, simplesmente por se tratar de uma cena comum e do cotidiano. Para muitos é com se elas não estivessem lá. Eu mesmo, nunca dou moedas, sinto pena ou remorso, mas é para o próprio bem de quem está ali naquela cruel realidade. Poderia está me questionando os “mil e um” motivos nos quais levam o ser humano aquela condição animalesca, no entanto, pressuponho as causas dessa situação indigna. 


Poderia ter parado e conversado com um deles, mas pressuponho com muitos não têm casa, são usuários de drogas e que a fome deles dói. É difícil parar e pensar para imaginar o tão difícil à vida daqueles que estão por não terem moradia e alimentação. Mas por uma razão ou outra, todos temos problemas ou passamos por dificuldades. Seja o mendigo com fome, seja a criança que maltrapilha que nunca frequentou uma escola ou mulheres ofertando o corpo pelas esquinas da cidade. Isso é o gostosinho do sistema capitalista, ver o homem explorar o outro homem com sede de “quero mais”. 

O irônico é presenciar vários “bichos homens” dormindo em frente a um determinando Banco que representa ao grosso modo o bruto capitalismo financeiro. Somente uma palavra pode descrever esse abismo entre ricos e pobres: Desumanidade. Papelão velho, sacolas e trapos que agasalhavam do frio e calor. Conforto? Oh, Deus talvez nunca soubessem o que significa isso.  Fome? Bom, isso eles conhecem como ninguém. 


O ônibus parou, eu, como não esperava mais ninguém, subir e fui embora. Com o coração dolorido e pensamentos dilacerantes sobre os “bichos homens” que são o apenas o muro da vergonha que separam ricos e pobres. Assim, como Manuel Bandeira se surpreendeu em ver que o bicho era um homem, eu senti vergonha. 

E encerro cantando a música “O Bicho Homem” de Fagner: “Que bicho é o homem, de onde ele veio e para onde vai?/ Onde é que entra de onde é que sai?”.


Um comentário:

  1. Abre espaço para pensarmos como estamos vivendo, como estamos lhe dando com os nossos próximos que sofrem, e que passamos bem perto e nada fazemos. É como um copo descartável que você vê jogado no chão, você passa, o vê, mas só toma o cuidado para não pisar nele. A desumanidade como você colocou, está tomando todo mundo, o capitalismo é um grande fator, o lucro é o que importa, o consumidor exacerbado é o que importa, quem sofre, dane-se.

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